A mídia e a modernidade - uma teoria social da mídia
(THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009)
João Batista FIRMINO1
“A mídia e a modernidade - uma teoria social da mídia” é uma obra que reflete
um conjunto de questões acerca do processo midiático e seus impactos na sociedade.
John B. Thompsontraz a tona o que já havia proposto em um trabalho anterior2
, isto é,
busca entender as tendências mais recentes da indústria da comunicação, avaliando uma
ligação entre as mudanças institucionais que perfizeram o mundo moderno e o
desenvolvimento da mídia.
Disso, podemos nos perguntar quais as consequências da atual organização
social do poder simbólico e, na necessidade de uma resposta e de novas perguntas,
encontrarmos toda uma investigação pautada no poder interativo entre os indivíduos -
suas relações sociais e formas de relacionamento consigo e com outros - diante do
desenvolvimento de novas redes de comunicação e seus fluxos; todo um processo visto
metodicamente pelo autor, que lida com a problemática esmiuçando-a em diversas
partes constitutivas bem distribuídas por oito capítulos.
Então, em um primeiro capítulo, tem-se a necessidade de um retorno às origens
da produção e troca de informações e de conteúdo simbólico. Nesse ponto, o
pesquisador percorre as diferentes formas de poder, com base em instituições
paradigmáticas concentrando poder econômico, político, coercitivo ou simbólico. O
autor expõe, também, seu próprio conceito de “comunicação” - basicamente como “…
um tipo distinto de atividade social que envolve a produção, a transmissão e a recepção
de formas simbólicas” (p.25). Esse tipo de atividade, que é a comunicação, se presta a
recursos variados, detalhados pelo autor que, posteriormente, esmiúça a chamada
1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGC/UFPB 2
THOMPSON, John B. Ideology and Modern Culture: critical social theory in the era of mass
communication. U.S.A.: Stanford University Press, 1990
Ano VII, n. 05 – Maio/2011
“comunicação de massa”, os “bens simbólicos”e todo um conjunto de características; e
aponta deficiências em pesquisas antigas, aborda o caráter mundano da atividade
receptiva - que, justamente, passa a ser vista como uma atividade.
Mais adiante, após uma longa digressão histórica sobre a mídia e o
desenvolvimento das sociedades modernas no segundo capítulo, Thompson aborda o
advento da interação mediada e a transformação da visibilidade - ambos, terceiro e
quarto capítulos, respectivamente.
Em se tratando da interação mediada, tem-se uma divisão entre interação face-aface
(dialógica), mediada (também dialógica) e a quase-interação mediada
(monológica), ampliando os padrões tradicionais de interação social. Novos tipos de
relações sociais, com base nisso e em outras informações, são criadas a partir dessas
experiências apontadas pelo autor sob a forma de três estruturas correspondentes a esses
tipos de interação e devidamente ilustradas nas páginas do livro. O pesquisador, além
disso, aprofunda-se nas diferenças entre destino receptor, cotidiano mediado, eventos
mediados e ação ficcional, com consequências sociais certamente imprevisíveis e que
partem do pressuposto de que a mídia se envolve ativamente na construção do mundo
social.
A questão da visibilidade e sua relação com o poder (bem como do poder
inerente do olhar) é abordada em seguida, com a relação entre público e privado,
evocando uma natureza do caráter público transformado pelo desenvolvimento da
mídia. O autor também reconstrói a evolução das relações históricas entre poder e
visibilidade. Tudo isso abarcando, inclusive, os novosusos da publicidade, que
alteraram profundamente a forma como o poder político é exercido, mesmo diante de
gafes, escândalos e vazamentos.
A obra ainda nos traz um dos aspectos mais evidentes da comunicação no
mundo moderno, o fato de tudo acontecer numa escala cada vez mais global - no quinto
capítulo. Entende-se que a globalizaçãosurge somente quando as atividades ocorrem
numa arena global, sua organização e planejamento também são globais, e quando tudo
isso envolve algum grau de reciprocidade e interdependência, permitindo que uma
atividade numa parte do mundo seja modelável por outras atividades em outras partes
do mundo (mais detalhes na p.135). E não podemos deixar de fora que é feita uma
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reavaliação das teorias como a do imperialismo cultural e, depois, sai-se em busca de
uma teoria da globalização da mídia.
No sexto capítulo, o autor é incisivo quanto ao que significa, no mundo de hoje,
uma ancoragem da tradição- ou a tradição em si. Thompson evita certos equívocos, que
pensam a tradição como uma “coisa do passado”, e demonstra que não há,
necessariamente, um declínio dela - que já foi, antigamente, pensada como inimiga do
pensamento iluminista e da dinâmica das sociedades modernas. Surge, então, a
explicação de que a tradição precisa ser compreendida, antes de tudo, em seu aspecto
hermenêutico (enquanto estruturação mental ou esquema interpretativo), aspecto
normativo (com seus princípios morais orientadores), aspecto legitimador (para o
exercício de tipos de poder como a autoridade legal, carismática e tradicional) e aspecto
identificador (trazendo uma auto-identidade ou uma identidade coletiva).
O sétimo capítulo é dedicado à natureza do eu (self) e a experiência cotidiana
num mundo mediado, ou, mais precisamente, em um mundo repleto de uma quaseinteração
mediada. Nesse ponto, Thompson nos explica que o self está mais reflexivo e
aberto, e que os materiais simbólicos mediados não destroem o local compartilhado.
Indo além disso, nos diz que o self surge, finalmente, como um projeto simbólico que o
indivíduo constrói ativamente. Contudo, esse mesmo self é atingido negativamente,
neste nosso mundo, pela intrusão mediada de mensagens ideológicas, pela dupla
dependência mediada, pelo efeito desorientador da sobrecarga simbólica e pela sua
absorção total nessa quase-interação mediada.
Ao se falar de intimidade e de experiência, vemos que, na quase-interação
mediada, a primeira não é recíproca, e que a segunda se divide entre experiência vivida
e experiência mediada, ajudando a dissolver o self, que vive a ilusão onde um mundo
deliberativo é, necessariamente, dialógico.
O último capítulo é dedicado à reinvenção da publicidade, reinventada diante de
novas formas de vida pública fora da competência do estado e da localidade -mesmo
que seja uma atividade de mais abertura e visibilidade, sem necessariamente envolver o
compartilhamento de um local comum.
Muito sobre o assunto é enriquecido, culminando em uma proposta de ética de
responsabilidade global, capaz de abastecer o que ele chama de “… frágil sentido de
responsabilidade pela humanidade e pelo mundo coletivamente habitado” (p.228).
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O que vemos, enfim, são oito capítulos ricos em uma análise criteriosa da
relação entre o que há hoje em termos de organização social do poder simbólico e suas
consequências para o nosso mundo.
Todavia, além de ter faltado no livro uma bibliografia mais visível, mais
organizada numa seção própria - tendo o autor preferido a aridez da seção “notas” -, o
livro poderia ter dedicado mais espaço à reinvenção da publicidade e à relação entre
interação mediada e a transformação da visibilidade, sobretudo usando a internet como
campo de pesquisa, algo que o autor não faz nesse seu trabalho.
Assim, apesar de ser uma obra útil, densa e madura, esses espaços que nós
citamos carecem de mais informações e complementações, exigindo do jovem
pesquisador a garra necessária para ele mesmo descobrir e produzir o que faltou,
principalmente sobre o universo hipermidiático da internet, um mun